A arte bolsonariana de atirar nos próprios pés

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João Batista Nascimento é escritor, professor universitário, especialista em Processo Penal, mestre em Ciências Jurídicas e doutorando em Direito Penal.

Pirralha! Esse foi o adjetivo que Bolsonaro encontrou para denominar Greta Thumberg, a adolescente – e ativista – sueca de 16 anos que se transformou num ícone mundial na luta pela preservação do meio ambiente. No dia posterior ao “elogio” do presidente miliciano, Greta estampou a capa da Revista TIME como PERSONALIDADE DE 2019, além da possibilidade de ser indicada ao PREMIO NOBEL DA PAZ deste ano.

A jovem sueca tem denunciado o desmatamento na Amazônia e, mais recentemente, a morte de indígenas no Maranhão, Estado com forte tensão entre os índios que lutam para proteger a floresta e aqueles que a querem derrubar. Disse a adolescente: “Os povos indígenas estão sendo literalmente assassinados por tentar proteger as florestas do desmatamento. Repetidamente. É vergonhoso que o mundo permaneça calado sobre isso”. Na verdade, a nosso ver, vergonha mesmo é o Estado brasileiro dar pouco importância para as gravíssimas violações dos direitos de minorias e vulneráveis que ocorrem em quase todo o território nacional. Não se sabe de uma única declaração oficial de apoio à apuração ou punição dos responsáveis por tais violações. Uma indiferença típica, se considerarmos o histórico do presidente.

Ao invés de se solidarizar com os que lutam pelo meio ambiente, Bolsonaro tenta desqualificar quem a isso se dedica, demonstrando sua indisfarçável repugnância àqueles que possuem forte discurso de preservação ambiental. Não por acaso, o presidente já ofendeu Greta em pelo duas ocasiões, sempre com o mesmo adjetivo. Sobre a notoriedade da ativista, disse achar “impressionante a mídia dar espaço para uma pirralha dessa aí, uma pirralha”. Não é difícil entender o porquê de o infeliz condottieri se sentir tão incomodado com o espaço e o destaque conquistados por Greta. São contrários. Enquanto o mundo aplaude a jovem sueca, como vê as ações e palavras do presidente brasileiro?

A capacidade de Bolsonaro em demonstrar sua ignobilidade é gigantesca. É como o toque de Midas ao contrário. Toda vez que se atreve a atacar ou tentar descaracterizar alguém, tem a opinião pública – pelo menos a parte inteligente desta – voltada contra si e acaba por fortalecer a parte contrária.

Lembram do cientista Ricardo Galvão, ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espacial – INPE? Pois é. Ricardo Galvão foi afastado do Instituto por fazer aquilo que sempre fez nos anos em que esteve à frente do INPE: denunciar ao mundo o aumento dos níveis de desmatamento da Amazônia. Dados do INPE apontavam um aumento de 88% no desmatamento no mês de junho, em comparação com os dados do mesmo mês de 2018. Bolsonaro veio a público e, numa tentativa de desmoralizar o cientista e o próprio Instituto, disse que eram falsos os dados e que não havia desmatamento no Brasil. Ricardo Galvão reagiu assim à fala do presidente: “Isso é uma piada de um garoto de 14 anos que não cabe a um presidente da república fazer”. Irritado, Bolsonaro demitiu Galvão, que chamou tal atitude de “pusilânime e covarde”.

E qual o resultado da atitude corajosa e digna de Ricardo Galvão?
O ex-diretor do INPE foi considerado CIENTISTA DO ANO, juntamente com outros nove cientistas, pela revista Nature, uma das mais respeitadas revistas científicas do planeta. Temos o reconhecimento, por parte da comunidade científica mundial, da competência e da dignidade de um dos nossos maiores físicos. Somente o chefe do Poder Executivo Federal, juntamente com seu atormentado Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, não foram capazes de tal reconhecimento.

Por fim, temos um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira, Chico Buarque de Holanda, ganhador de vários prêmios dentro e fora do país, envolvido numa polêmica ridícula após ganhar o mais importante prêmio da língua portuguesa, o Prêmio Camões de Literatura que, desde 1988 consagra um autor que tenha contribuído para enriquecer o patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. O Prêmio foi conferido a Chico Buarque por uma comissão formada por representantes brasileiros, portugueses e integrantes de países africanos que têm a língua portuguesa como idioma oficial.

Para que Chico Buarque receba o prêmio de pouco mais de R$ 447.000,00, valor dividido entre os governos brasileiro e português, faz-se necessário que Bolsonaro assine o diploma que acompanha a premiação. Instado a se manifestar, o presidente disse que sua decisão é um “segredo” e, de forma irônica, proferiu a pérola: “Tenho prazo? Até 31 de dezembro de 2026 eu assino!”. Em sua conta no twitter, Chico foi sarcástico: “A não assinatura do Bolsonaro no diploma é para mim um segundo prêmio Camões”.

A obra consagrada de Chico Buarque fala por si só. O artista é autor de peças teatrais, compositor, escritor e uma da maiores expressões da música brasileira, reconhecido em diversos países e um dos ícones da luta pela redemocratização em nosso país. Nas últimas eleições, esteve ao lado do ex-presidente Lula e de Haddad contra a candidatura de Bolsonaro. Como a arte e a cultura não agradam quem possui apreço por violência e baixarias, justificado está o desprezo do presidente não apenas quanto a Chico, mas, a todos os artistas que se manifestam em defesa da democracia e da cultura em nosso país.

Como de praxe, o presidente confunde as funções institucionais com as questões familiares e de sua vida privada, numa mistura tão perigosa quanto comprometedora para o cargo mais importante da república.
E ainda estamos no fim do primeiro ano desse triste mandato.

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