Artigo. As fake news no Brasil

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Luciano Everton Costa Teles é Historiador.

As notícias falsas ganharam um espaço enorme nos últimos anos, e passaram mesmo a não somente contaminar uma quantidade significativa de pessoas, mas, principalmente, a influenciar ações e comportamentos no cotidiano das relações humanas. Foi, sobretudo, utilizado no campo político para criar imagens negativas do adversário com a finalidade de desqualificá-lo e eliminá-lo. Assumiu proporções gigantescas a ponto de constituir grupos conectados em redes que obedeciam a “voz de comando” que emanava daquilo que ficou conhecido como o “gabinete do ódio”.

Nas eleições de 2018, quem não se lembra das diversas notícias falsas que atingiram lideranças políticas importantes, como, por exemplo, a Manuela D’Ávila que foi alvo de mais de três dezenas de Fake News. Só para citar duas dessas informações falsas, vamos lembrar aqui daquela montagem em que ela aparece com uma camiseta escrita “Jesus é travesti” e de outra montagem em que ela surge abatida (querendo insinuar que estava drogada) e com tatuagens de Che Guevara e de Vladimir Lênin, duas importantes figuras históricas, o primeiro da Revolução Cubana e o segundo da Revolução Russa. Quantas pessoas não caíram nessas mentiras e não pautaram os seus discursos e comportamentos de ódio a partir delas?

Além de Manuela D’Ávila, Guilherme Boulos foi vítima dessas notícias mentirosas. Na ocasião, era uma imagem falsa de um jornal que informava que Boulos, candidato ao PSOL à Presidência da República em 2018, havia dado entrada em um hospital de Minas Gerais em função de uma overdose. Fernando Haddad, da mesma forma que Boulos, sofreu com as Fake News. Chegaram ao cúmulo de disseminar que ele defendia o incesto e também que havia estuprado uma garota de 11 anos de idade. Não podemos esquecer-nos de Jean Wyllys. Sobre ele a rede de mentiras propalou que iria criar uma lei para obrigar o casamento gay em igrejas, dentre outras notícias falsas produzidas.

Além de importantes lideranças políticas, os movimentos sociais também foram alvos dessas fábricas de mentiras. Algumas delas sobre o movimento feminista: que as feministas queriam roubar direitos dos outros; que excluíam o feminino; que invertiam os valores; e, pasmem, que costuravam as suas vaginas. Que absurdo! Mas muitos acreditaram nessas notícias falsas. O universo de Fake News atingiu também o movimento LGBT, que foi acusado de forma tratante de apoiar o “Kit Gay” nas escolas (o Kit Gay é uma das principais mentiras propagadas), de promover o “Seminário LGBT Infantil” e de que pedófilos faziam parte do referido movimento.

As Fake News continuaram em 2019 e 2020, atingindo todos aqueles que questionavam e/ou se colocavam de forma contrária em ideia e pensamento ao governo de Jair Bolsonaro, que só chegou à Presidência por força do golpe iniciado em 2016, que tirou Dilma do Planalto e prendeu – com um processo duvidoso e com uma atuação duvidosa de setores do judiciário – o favorito das eleições de 2018, o ex-presidente Lula, e por conta das notícias falsas, direcionadas ao campo da esquerda, especialmente às suas principais lideranças. Aliás, este atual governo continua agindo com base em mentiras: que a pandemia do novo coronavírus é só uma “gripezinha”, que os números de mortos de Covid-19 foram turbinados, etc.

E continua a mentira… A última delas informa que as queimadas na Amazônia são ocasionadas por caboclos e indígenas (justamente aqueles que na sua relação histórica com a natureza, menos danos causaram à ela) e não por madeireiros, garimpeiros e grileiros.

Não se deve confundir liberdade de expressão com notícias falsas que alimentam e sustentam os discursos de ódio. Os responsáveis pelo “gabinete do ódio”, pela rede de distribuição de mentiras e pelas mentiras devem ser responsabilizados. Aguardemos o desenrolar do inquérito das Fake News.

E fica um alerta: não absorvam as notícias de forma imediata e passiva. Duvidem, pesquisem, informem-se sobre o assunto. Tal atitude é fundamental e poderia ter minimizado os efeitos danosos, inclusive no campo político, da fábrica de mentiras.

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