Artigo. ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’

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Luciano Everton Costa Teles é Historiador.

Quem não conhece essa passagem bíblica? Constantemente ela é reportada em cultos religiosos, sejam católicos e/ou evangélicos. Mas ela foi intensamente utilizada por Jair Messias Bolsonaro na campanha presidencial de 2018, certamente para reverberar uma de suas bases de apoio, as igrejas neopentecostais representadas pelas suas lideranças – Edir Macedo, Valdomiro Santiago, Silas Malafaia, Romildo Soares (o RR Soares), dentre outros.

Nas suas respectivas igrejas, tais lideranças produzem seus discursos com base na palavra de Deus, a Bíblia Sagrada. Solidariedade, respeito, perdão, salvação, fé, humildade, partilha e amor ao próximo são balizas importantes presentes no livro sagrado. Quando procuramos passagens sobre Jesus Cristo, observamos em suas ações narradas essas balizas. Poderíamos aqui lançar mão de vários exemplos, porém vamos ficar apenas nos exemplos da mulher que cometeu adultério e que Jesus evitou que fosse apedrejada (João 7:53 até 8:1-11) e o perdão que Jesus na cruz deu ao ladrão que também havia sido crucificado e que estava ao seu lado (Lucas 23:32-43).

São dois episódios/imagens fortes presentes nas escrituras sagradas. Eles são emblemáticos porque explicitam as ações de Jesus, que não desprezava adúlteras, ladrões, como nas passagens acima, como também não descartava as prostitutas, os doentes, enfim, os marginalizados de uma maneira geral. Da mesma forma, Jesus pregava a justiça e a paz. E em que pese que ele tenha entrado em algum momento no templo derrubando as mesas, cadeiras e expulsando todos os que vendiam e compravam ali (Mateus 21:12), ele não fazia apologia a qualquer tipo de arma, a não ser a fé!

Pois bem, é difícil entender como as lideranças neopentecostais, que falam com base na Bíblia e tomam Jesus como referência, escolheram o “Messias” para apoiar e avalizar a sua plataforma política. Tal “Messias”, candidato a Presidência da República em 2018, na sua campanha saiu propagando a defesa das armas e a eliminação das minorias. De quebra, construiu os “inimigos” a serem combatidos: os que não concordavam com ele e sua base. Na campanha atuou disseminando fake news (mamadeira de piroca, kit gay, imagens montadas com frases que visavam destruir a reputação de políticos progressistas, dentre outros), alimentando e potencializando o discurso de intolerância e ódio.

Quem não se lembra dessas frases de Bolsonaro: “vamos fuzilar a petralhada”; “o erro da ditadura foi torturar e não matar”; “Eu sou favorável à tortura”; “Morreram poucos, a PM tinha que ter matado mil”; “As minorias devem se curvar a maioria” (ver – https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-em-25-frases-polemicas/ ).

O “Messias” dos neopentecostais ganhou as eleições com base na mentira e no discurso de intolerância e ódio amplificado por sua base (além dos neopentecostais, os ultraliberais e militares, mas também setores da mídia corporativa e do judiciário, com destaque para Sérgio Moro que depois se tornou Ministro da Justiça de Bolsonaro, o que revela muito não!). Na Presidência o “Messias” passou a aparelhar as instituições do Estado e a perseguir os ditos “inimigos”, além de exaltar o AI-5 e pregar o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Participou constantemente de atos antidemocráticos, flertando com o fascismo, expresso por pessoas de seu entorno – como o fatídico vídeo do ex-secretário de cultura, Roberto Alvim – e pela militarização do seu governo.

Recentemente, o “gabinete do ódio” e o caso Queiroz explicitaram as ligações obscuras e comprometedoras, com o submundo do crime e da corrupção, da família Bolsonaro. Sem falar da trágica reunião do dia 22 de abril de 2020, que se tornou pública e revelou um presidente desbocado, autoritário e alucinado, e da falta de combate ao novo coronavírus. Aliás, o país está sem os ministros da saúde (Eduardo Pazuello é o interino que foi ficando) e educação (Abraham Weintraub foi demitido), e sem direção!

Enquanto isso, o negacionismo continua e com mais força, dado que agora é preciso negar mesmo as relações obscuras, os números de infectados e mortos de Covid-19, o desmatamento na Amazônia, o “gabinete do ódio”, as ligações com Queiroz, etc. E as lideranças neopentecostais? Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, disse que Bolsonaro é “feio por fora e bonito por dentro” (conferir – https://oglobo.globo.com/rio/bolsonaro-feio-por-fora-bonito-por-dentro-diz-crivella-apos-coletiva-no-riocentro-24425190 ). Só pode ser uma grande piada! Assim como também deve ter sido uma grande piada o seu tio (Edir Macedo) dizer que o novo coronavírus é “inofensivo” e uma “tática de satanás” (verificar – https://www.poder360.com.br/midia/edir-macedo-diz-que-coronavirus-e-inofensivo-e-tatica-de-satanas/ ). Macedo pegou a Covid-19, interessante perceber que ele não comprou o grão de feijão, no valor de cem reais, do Valdomiro Santiago, que estava oferecendo aos fiéis para que fossem curados dessa doença (aqui Jesus certamente iria repetir aquele gesto do passado, no templo, acima destacado).

Enfim, como diz 1 João (4:1): “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo”.
Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!

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