Artigo. Salve-se quem puder!

Luciano Everton Costa Teles é Historiador.

Em 1822, o Brasil se emancipou politicamente, deixou de ser colônia de Portugal para se tornar Império. E, nas décadas seguintes, necessitou criar, em especial, uma identidade nacional e uma história oficial. Esta tarefa foi delegada ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), criado em 1833. Realizou-se um concurso patrocinado pelo IHGB sobre como escrever a História do Brasil. Quem ganhou foi Carl Von Martius, que salientou que para se escrever a História do Brasil era necessário considerar o índio, o negro e o europeu.

Embora Von Martius tenha sugerido tal caminho de escrita, na prática mantiveram-se a escravidão, e toda a justificativa ideológica que a sustentava, e o esforço em tornar invisíveis os povos indígenas, assimilando-os à sociedade nacional e/ou eliminando-os fisicamente (os índios dos sertões, bravios que não aceitavam a assimilação em curso). Por outro lado, os europeus eram referência, exemplos a serem seguidos, valorizados e até mesmo “imitados”. Lançou-se, então, uma política de “branqueamento” e europeização dos trópicos.

Quando a abolição ocorreu, em 1888, ela não veio acompanhada de uma política de inclusão social, mas sim de controle e exclusão social, com a proibição, num primeiro momento, das práticas religiosas e culturais de matrizes africanas. Quanto aos índios, precisavam ser incorporados de qualquer forma à sociedade nacional. Porém, na virada do século XIX para o século XX se consolidou no país as chamadas ideias eugênicas. Mas o que é eugenia e como ela se materializou no país?

Consoante Maria Eunice Maciel – em artigo intitulado “A Eugenia no Brasil” (o qual indico para quem quiser ir adiante com o tema) – a eugenia é uma gama de ideias e práticas relacionada a um “melhoramento da raça humana”. Criada por Francis Galton no século XIX, a eugenia tinha como pressuposto que a “hereditariedade determinaria as condições do indivíduo”, que “as condições de vida seriam expressões das condições biológicas”, em outros termos, que os caracteres genéticos determinariam as condições individuais e sociais das pessoas.

O movimento eugênico no Brasil teve em Renato Kehl um de seus expoentes. Tal movimento buscava tratar do que dizia ser um “problema racial” brasileiro, ou seja, o país seria atrasado em função dos considerados “seres inferiores” (índios e negros). Portanto, era necessário “melhorar a raça” a partir dos europeus, vistos como “superiores”. Nesse sentido, para os adeptos desse movimento, o que se deveria fazer era curar a sociedade de pessoas doentes (doenças mentais, crônicas…) e indesejáveis (impulsos criminosos, desordeiros… Poderiam ser incluídos aí ciganos, ativistas políticos, analfabetos, preguiçosos, dentre outros).

As ideias e práticas eugênicas no Brasil circularam principalmente na segunda metade do século XIX e alcançaram seu “apogeu” nas décadas iniciais do século XX. No século XIX temos a imigração europeia subvencionada (na década de 1870, por exemplo) no Brasil, especificamente a escolha europeia (o trabalhador “ideal” livre) como uma dessas práticas. Do mesmo modo, temos também a política do “branqueamento” através da miscigenação (misturar os caracteres genéticos dos europeus com os dos índios e negros), que continuou na Primeira República (1889-1930). Nesta, inclusive, os trabalhadores europeus (portugueses, italianos, espanhóis e outros) eram absorvidos no mercado de trabalho em detrimento dos nacionais, o que se tentou resolver na década de 1930, com a lei dos 2/3 (contratação de 2/3 de trabalhadores nacionais). Essas ideias e essas práticas alimentam preconceitos e discriminações até hoje, assumem também nova roupagem, consoante as características do contexto histórico.

Nessa pandemia, o (des)governo tem feito de tudo para negar/minimizar os efeitos da COVID-19: primeiro negando, “era uma invenção dos inimigos chineses e seus aliados”, depois passando a ser uma “gripezinha”, em seguida se tornando um vírus produzido pelos “chineses para dominarem o mundo”. Como a realidade acabou se impondo, o (des)governo teve que se posicionar frente à ela e acabou consolidando o país rumo a lugar nenhum, apenas com o esforço de ocultar as mortes causadas pelo vírus através de uma suposta mudança de metodologia no âmbito do Ministério da Saúde, levada a cabo pelo Eduardo Pazuello, o interino.

Mas, subjacente a isso e considerando as próprias palavras do presidente do país, consciente ou inconscientemente, o que esse (des)governo realmente quer é colocar a população brasileira em contato direto com o vírus e salve-se quem puder!

O interessante disso tudo é que, de modo grosseiro, temos aí um esboço de projeto eugênico presente, uma espécie de “limpeza social” pelo vírus. Nessa esteira, idosos e pessoas com comorbidades teriam “menos chance” do que as pessoas jovens e saudáveis. Melhoramento de uma “raça humana” para o neoliberalismo?
Aparentemente, para esse (des)governo, a vida de algumas pessoas vale menos!


Redação Portal do Norte

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Manaus, Amazonas, Amazônia, Brasil, Comunicação, Imprensa, Notícias..
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