Artigo. No Brasil a fome bate à porta!

Luciano Everton Costa Teles é Historiador.

O ser humano ao longo de décadas buscou criar e desenvolver tecnologias que pudessem ser mobilizadas e utilizadas para potencializar a produção de alimentos, com a finalidade de assegurar a sua manutenção física e fisiológica no mundo. Por força dessa capacidade racional e criativa do homem, atualmente o mundo pode produzir uma quantidade de alimentos superior ao que é necessário para a vida na terra.

Em que pese essa capacidade notoriamente reconhecida, milhares de pessoas convivem diariamente com a fome no planeta, o que aparentemente parece ser contraditório, pois ao mesmo tempo em que é possível produzir alimentos para além da necessidade atual, também é possível ver pessoas sem ter acesso a tais alimentos. A questão que se coloca é a seguinte: por que isso ocorre?

Alguns pensadores contemporâneos ressaltam que o capitalismo neoliberal esgotou todas as possibilidades civilizatórias no mundo contemporâneo, e está conduzindo a humanidade numa direção cujos resultados são: a destruição ambiental, a exploração do trabalho, a concentração de renda, a intensificação das desigualdades sociais e da exclusão social, para ficarmos apenas nestes aspectos.

Se fecharmos os olhos e imaginarmos pessoas em situação de fome, pedindo comida nas ruas ou em casa vendo o seu filho chorar porque não há o que comer, definitivamente é a falência da civilização. Agora este é um quadro real, podendo ser visto no cotidiano. Porém, não se combate a fome com políticas que gerem mais destruição ambiental, concentração de renda, exploração do trabalho, desigualdades sociais e exclusão social.

Pelo contrário, a sociedade civil deve se mobilizar e pressionar o Estado a intervir no sentido de elaborar políticas de preservação ambiental, distribuição de renda, valorização do trabalho e inclusão social. Qualquer ação do Estado que vá à direção contrária disso, estará agravando ainda mais a situação de fome, contribuindo diretamente para aumentar ainda mais este contingente.

E esta é a situação do Brasil. Os esforços de décadas passadas em possibilitar que milhares de famílias brasileiras pudessem ter acesso a três refeições por dia foram diluídos, sob o medíocre pretexto de populismo fiscal ou o mentiroso discurso do inventivo à “vadiagem”. Programas sociais de distribuição de renda, de valorização do salário mínimo, de proteção ao trabalho e de inclusão social foram desmantelados recentemente.

Após o golpe de 2016, a agenda ultraliberal ganhou força com a reforma trabalhista (leia-se precarização/exploração do trabalho) do governo Michel Temer e a reforma da previdência (leia-se fim da aposentadoria e da assistência/proteção social) de Jair Bolsonaro/Paulo Guedes, com o aval do Congresso Nacional. A reforma administrativa pode agravar ainda mais a situação. Sem falar no salário mínimo, cuja política de valorização tem sido desmontada após 2016.

Enfim, a pandemia surgiu e contribui de alguma forma para as falências e desempregos que ocorreram. O auxílio emergencial deu algum suspiro para aqueles que mais necessitam. Não obstante, a política econômica ultraliberal, de 2016 para cá, especialmente sob a condução de Paulo Guedes, tende a agravar todo esse quadro de exclusão social, miséria e fome, chegando mesmo a ser mais nocivo que a pandemia. Certamente que o governo culpará a pandemia por tudo, mas o que esperar de um governo baseado em fake news…

A fome é uma realidade mundial. No Brasil, ela bate à porta! Infelizmente o país poderá voltar ao mapa da fome.

Avatar

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *