Artigo. Recados das urnas

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

Numa avaliação preliminar é possível identificar a mudança de comportamento do eleitorado com os impactos causados pela Covid-19 no resultado final das eleições municipais do Brasil, além da crise econômica, social, moral das instituições de Estado e as decepções com os eleitos em 2018.

Em 2016, o país estava passando por uma crise moral e econômica, depois de um impeachment presidencial, e, uma parcela significativa do eleitorado resolveu aprovar nas urnas candidatos com discursos da antipolítica tradicional, da anticorrupção e de uma nova política na gestão pública. Somente 46% dos prefeitos que disputavam as eleições foram reeleitos. Novatos tiveram êxitos nas urnas, como João Dória para a prefeitura de São Paulo e Alexandre Kalil, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Aquele comportamento do eleitorado de apostar na antipolítica e no novo chegou até as eleições de 2018. Inúmeros governadores foram eleitos. Governantes sem qualquer experiência administrativa e militância política. Para uma parcela significativa do eleitorado o mais importante era votar em pessoas fora da política tradicional. Com esse perfil foram eleitos Wilson Lima (PSC) no Amazonas; Wilson Witzel (PSC) no Estado do Rio de Janeiro; Romeu Zema (Novo) em Minas Gerais e outros. Até o presidente Bolsonaro também surfou na onda da antipolítica, mudança na política e no impacto da crise moral que assolava e ainda assola o Brasil, vencendo a disputa presidencial.

Agora, em 2020, a maioria do eleitorado mudou de posição. Resolveu votar na política tradicional. A Covid-19 e a decepção com os ditos novos na política são fatores determinantes para a mudança do comportamento. Candidatos com experiências de administração pública e os prefeitos que souberam conduzir as medidas sanitárias e econômicas na pandemia, obtiveram êxitos. Prevaleceu o voto mais conservador, sem ousadia, sem o discurso da antipolítica e do antissistema. Dos prefeitos que disputaram o pleito 64% foram reeleitos.

Os embates entre Esquerda e Direita não foram a tônica. Bolsonaristas e petistas foram derrotados. Nem Lula e nem Bolsonaro ajudaram os correligionários nas eleições. Ambos não entenderam o novo sentimento da maioria do eleitorado. Partidários fiéis do presidente não conquistaram importantes prefeituras; embora com votação expressiva do PSOL, do PDT e do PSB, os partidos de esquerda perderam inúmeras prefeituras.

No amazonas, os atuais prefeitos foram favorecidos pela Covid-19, com dinheiro em caixa, programa de assistência social e o sentimento eleitoral de manter os atuais governantes com boas experiências e realizações. Uma mudança bem significativa. O continuísmo prosperou: em 2016, 65% dos que saíram ou foram apoiados pelos prefeitos foram derrotados; em 2020 dos 44 que disputaram o pleito, 34 foram reeleitos, marcando 70% de reeleição.

Dentro do cenário nacional, a maioria dos eleitores da cidade de Manaus escolheu dois membros da escola política tradicional do falecido ex-governador Gilberto Mestrinho para disputar o segundo das eleições: David Almeida e Amazonino Mendes. Saiu vencedor David Almeida. O discurso do novo e da antipolítica não prosperou. A decepção com o governo Wilson Lima também ajudou na escolha de candidatos tradicionais.

As eleições de 2022 prometem. O eleitorado vai manter a polaridade ideológica da última eleição presidencial (2018) ou irá confirmar novos rumos? Os discursos da antipolítica e do novo ainda terão espaço hegemônico? Mas uma conclusão é certa: Bolsonaro e as esquerdas terão que montar novas estratégias para 2022. É o recado dado pelo eleitor nestas eleições municipais.

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