Opinião. O Século de Sorel

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Breno Rodrigo é Cientista Político.

O século XX foi indiscutivelmente o período de maior violência e morticínios da história humana. Números conservadores revelam que aproximadamente 90 milhões de pessoas foram vitimadas em duas grandes guerras mundiais; isso sem falar nas incontáveis guerras e conflitos armados que se seguiram no pós-1945.

O século XX testemunhou igualmente regimes políticos que mesmo em tempos de paz ceifaram as vidas de seus nacionais, nos casos do nacional-socialismo (fascismo italiano e nazismo alemão) e dos países comunista, com destaque para a Rússia de Stálin e a China de Mao Tsé-Tung. Numa contabilidade macabra, nacional-socialismo e comunismo juntos foram responsáveis diretamente pela morte de mais de 100 milhões de pessoas.

Richard Weaver uma vez disse que “ideias têm consequências”. E o século dos cadáveres ideológicos foi o século das ideologias totalitárias. Todos os totalitarismos foram um dia ideias, abstrações filosóficas, bandeiras ideológicas que bradavam por um mundo melhor. Em outros termos, os homens de ideias tornam-se apóstolos do caos.

George Sorel, revolucionário francês, foi certamente um desses apóstolos. Uma característica marcante na personalidade política e intelectual de Sorel é o seu ecumenismo moral e político. Admirador de Sócrates, Nietzsche, Hegel e Bergson – filósofos tão adversos –, bem de doutrinas historicamente excludentes, pois ao longo de sua vida chegou a ser adepto do marxismo, catolicismo, monarquismo, anarquismo e nacionalismo, sindicalismo e fascismo. Em Reflexões sobre a Violência, seu livro mais importante e conhecido, Sorel teorizou a importância do mito político e da violência nas estratégias revolucionárias da modernidade.

A sua concepção de mito político foi a sua maior contribuição para as doutrinas totalitárias. O mito político é a própria sacralização do poder, de um ideal supra-humano, salvífico e heróico de uma nação. O mito político é a encarnação da história, do proletariado como classe universal, ou dos arianos como uma raça superior. Dessa forma, o mito político assume todos os pressupostos morais e políticos da revolução redentora.

Outra noção soreliana ainda muito usada é a da violência. O uso da violência política foi alçado à condição de um imperativo categórico do exercício do poder político. A violência, segundo Sorel, é apoteótica, pois assume uma função purificadora. Os antigos rosa-cruzes diziam que na “natureza tudo se renova pelo fogo”; Sorel diria que na política tudo se renova pela violência. A violência propaga uma moral restauradora épica. Em termos históricos, a violência revolucionária sempre advogou a prática da violência como um elemento necessário para se atingir o juízo final do reino imanente totalitário sobre a terra.

O culto à violência, a Marte, à Shiva, ao caos será legitimado como um instrumento necessário, uma tarefa de todo revolucionário digno de nome. A multiplicação de grupos terroristas, os máfias, organizações criminosas responsáveis pelo tráfico nacional e internacional de drogas são as expressões dessa lexicografia da política no início deste milênio. Será cada vez mais comum, o uso político, corporativo e intersubjetivo da violência numa clara dissolução do aparato leviatânico do Estado moderno (aquele que exerce juridicamente o monopólio legítimo da violência).

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