Vera Cruz pariu ratos

CARLOS SANTIAGO

“Os montes parirão, e nascerá um ridículo rato”. Essa citação vem aparecendo no cenário político para demonstrar algo de grande impacto, mas que decepciona pela ínfima repercussão. É claro, estamos falando de política, e, nessa arena, os discursos são utilizados a favor ou contra o adversário. Não há neutralidade na luta pelo poder.

Quando o italiano Quinto Horácio Flanco, poeta, lírico, satírico e moralista político, disse a frase, ele empregou o verbo “parir” no futuro, referindo-se a algo ainda não ocorrido, que ainda irá acontecer. Hodiernamente, os usuários dessa citação mudam o tempo do verbo, e o pronunciam no pretérito, algo já acontecido, terminado, que já conhecemos o resultado. Há uma inversão no valor e na potência de sua construção. Pode-se dizer mesmo que ocorre um empobrecimento em sua sintaxe, semântica e estilística.

La Fontaine, que todos conhecem, fez uma bela fábula com o título “O parto da montanha”. A nossa personagem começou a dar urros e berros assustando a todos. “O que será, o que não?”, perguntavam todos inquietos. “É a montanha que vai parir. Que imenso monstro será seu filho”, diziam. Para surpresa de todos, a montanha pare um rato. Moralidade: os que prometem mundos e fundos espantam-nos a final com o nada que dão de si.

Sérgio Moro e Hamilton Mourão utilizaram, em contextos diferentes, a citação supra, cada um ajustando aos seus interesses. O primeiro, em junho de 2019, se referindo às mensagens entre ele e Deltan Dallagnol, reveladas pelo jornal Folha de São Paulo e pelo site The Intercept Brasil. A reportagem demonstrava uma articulação entre procuradores para proteger o então juiz em situações mais delicadas e de enfrentamento ao STF. O outro, utilizou a citação duas vezes: dia 12 de maio, quando falava a investidores, procurando minimizar a saída de Sérgio Moro, do governo; e no dia 23 de maio, para se referir ao impacto do vídeo que, segundo Moro, demonstrava a interferência do Presidente da República na autonomia da Polícia Federal. Isso são fatos a serem ponderados.

Por mim, quero propor uma fábula, uma alegoria que se passa em uma terra bem distante, não tendo qualquer relação com a realidade. Vamos lá. Havia, em tempos remotos, uma imensa montanha chamada de Vera Cruz. Era uma jovem de uns 500 anos, mais ou menos. Não tinha boa saúde, nem educação, trabalhava bastante, mas jamais chegou a ficar rica. Seus desejos e sonhos, com o passar do tempo e nunca realizados, tornaram-se delírios, fazendo com que de tempos em tempos seu coração e sua mente entrassem em convulsões, cada vez maiores.

Queria muito gerar filhos e cumprir o mandamento bíblico, mas jamais encontrou um parceiro confiável. Tinha um amor infinito e sua sensibilidade e inocência sempre atraíam os piores amantes: malandros, corruptos, preguiçosos, aproveitadores, usurpadores,…enfim, sempre se entregava aos piores seres existentes.

Em certa noite, rezou bastante pedindo aos deuses que realizassem seu desejo de ter um filho. Dizia pra si mesma: essa criança vai ser o início de tudo de bom. Vai ser ética, responsável, educada, saudável, respeitadora, trabalhadora. Pediu tanto que os deuses resolveram atender ao seu pedido. Porém, um dos deuses proclamou: o filho a ser parido será o fruto de todos os acertos e desacertos que a pedinte teve em sua história de vida. Ela amanheceu grávida e depois dos meses de gestação pariu. Não um, ou dois, ou três… mas a um monte de ratos, que cresceram e dilapidaram todos os bens que a pobre montanha Vera Cruz possuía.


Carlos Santiago

Carlos Santiago

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado.
Carlos Santiago

 

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *