A Amazônia arde em chamas

LUCIANO EVERTON

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou no mês de agosto do corrente um dado bastante preocupante: o desmatamento da Amazônia, entre agosto de 2019 e julho de 2020, aumentou em 33% em comparação ao mesmo período anterior. O fogo está consumindo o coração da maior floresta tropical do mundo e, consequentemente, está queimando não somente a sua riqueza natural, sua biodiversidade reconhecida nacional e internacionalmente, mas também colocando em risco as populações tradicionais – os povos indígenas e seus descendentes, quilombolas e outros – que historicamente reproduzem a sua existência no contato e na relação com os rios e a floresta.

Isso é uma consequência direta do contexto atual de um governo que sistematicamente vem atacando os povos quilombolas, indígenas e demais populações ditas “tradicionais”, cujos costumes e práticas sociais se erigiram da experiência milenar legada dos povos indígenas que viveram e que ainda vivem na região amazônica, especialmente no que concerne ao modo de se relacionar com a floresta em termos de moradia, agricultura, pesca, caça, trocas comerciais, medicina milenar, dentre outros.

A fumaça oriunda do fogo que vem consumindo a Amazônia provocou uma reação de setores nacionais e internacionais importantes. Os povos que são atingidos diretamente pelos interesses econômicos de madeireiras, de mineradoras, de fazendeiros e de grileiros não se calaram e vêm denunciando constantemente essas ações criminosas (pois se trata de crime ambiental, correlacionado com invasões de terras indígenas, ameaças às lideranças locais e comunitárias, etc.) operacionalizadas. Também temos setores empresariais e investidores internacionais que trataram de se posicionar contra o desmatamento da Amazônia.

Tais denúncias e pressões internacionais ganharam a mídia nacional e internacional. Só para ilustrar, um grupo de investidores globais assinou, no mês de junho do corrente, uma carta aberta ao Brasil na qual eles diziam que estavam preocupados com a política ambiental e a dos direitos humanos no Brasil. Em 2019, por exemplo, o desmatamento da Amazônia foi assunto de um duro editorial de um importante jornal global, o The Guardian, que condenou fortemente o significativo aumento do desmatamento na região.

Frente a tais pressões, a resposta do governo Bolsonaro foi descabida, injusta, absurda e de uma ignorância histórica larga. Disse Bolsonaro que são os “indígenas e caboclos” que causam “parte considerável” do desmatamento. Ora, as pesquisas arqueológicas, antropológicas e históricas na Amazônia demonstram justamente que os povos indígenas que viveram na região, através de suas práticas sociais e culturais desenvolvidas para assegurar a sua vida em sociedade, contribuíram justamente para a preservação deste meio e que, inclusive, também concorreram para multiplicar a diversidade natural e social. Na realidade, a sua fala busca ocultar os responsáveis pelo desmatamento na Amazônia, que são justamente aqueles que explicitamente, sem vergonha alguma, fizeram o dia do fogo, aquele evento fatídico que envergonhou o Brasil perante a comunidade internacional. Madeireiros, garimpeiros, fazendeiros, grileiros e outros querem devastar a Amazônia, a sua riqueza e as diversas populações que vivem na/da floresta, com o objetivo de ampliar fronteiras econômicas e lucrar com a destruição da floresta.

É uma vergonha ter um ministro como Ricardo Salles, que fala em “passar a boiada” – mudar os marcos legais e regulatórios – em tempos de pandemia para viabilizar as ações dos grupos citados acima e permitir a expansão de fronteiras econômicas sem considerar e sem conhecer a realidade da floresta e dos povos que lá vivem.

A Amazônia está queimando e pede socorro!


Luciano Everton

Luciano Everton

Luciano Everton Costa Teles é Historiador
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Luciano Everton Costa Teles é Historiador

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