Artigo. Aniversário de Manaus: Disputa de Memórias

Luciano Everton Costa Teles é Historiador.

Em geral, costuma-se comemorar o aniversário da cidade de Manaus no dia 24 de outubro. Nesse sentido, no ano de 2020, Manaus deve, então, comemorar os seus 351 anos. Entretanto, em anos anteriores, em especial no ano de 1998, as autoridades da época buscaram celebrar os 150 anos da capital do Amazonas. Nada impede que no próximo ano Manaus seja parabenizada pelos seus 480 anos ou ainda pelos seus 7 mil anos de existência.

O que a princípio aparenta ser uma grande confusão de datas, nada mais é do que uma bela disputa de memórias. Pois bem, para solenizar os seus 351 anos de idade, o ponto de partida necessita ser localizado no ano da fundação da Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro, ou seja, em 1669. A Fortaleza foi um estabelecimento militar edificado pelos portugueses com finalidades geopolíticas e econômicas, uma vez que era de interesse dos mesmos manter a um só tempo o controle do território, dos seus recursos naturais e da mão de obra indígena. Neste último ponto, cabe salientar que a Fortaleza se consubstanciou num “curral de índios”, ou seja, índios escravizados que eram ali “armazenados” para posterior venda.

Por outro lado, se optarmos por celebrar os 150 anos de Manaus, o ponto de origem tem que ser a elevação do Lugar da Barra à categoria de cidade através da Lei n. 145 de 24 de outubro de 1848. Por esta Lei, a cidade recebeu, primeiramente, o nome de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro, e somente depois, no ano de 1856, foi denominada de Manaus. Porém, se caso escolhermos festejar os seus 480 anos, a referência para esta idade avançada deve ser a primeira expedição que passou pela confluência do Rio Negro com o Rio Solimões, em 1541-42, portanto a expedição de Francisco Orellana.

Podemos também considerar a presença milenar dos povos indígenas que habitavam a região, com os seus modos de vida e universos próprios, as relações sociais dinamizadas por eles mesmos, num movimento histórico dinâmico e cheio de interações e vida. Sendo assim, temos que comemorar os 7 mil anos de Manaus.

Enfim, a questão é: que memória pretende ser hegemônica nesse processo? Ao insistirmos nos 351 anos de Manaus, estaremos certamente dando felicitações a uma cidade que acabou se formando com base em ações portuguesas, ações que promoveram a escravização e comercialização de grupos indígenas, uma cidade que nasceu a partir de um “curral de índios”. Por outro lado, caso desejemos bater palmas para a cidade de Manaus pelos seus 150 anos, estaremos fazendo isso observando que ela foi criada puramente por uma Lei, num mês, num dia e numa hora marcada. Nasceu de um puro ato legislativo.

Entrementes, caso queiramos soltar fogos para os seus 480 anos de idade, então estaremos partindo da expedição de Orellana e comemorando o nascimento de uma cidade marcada pelo El Dorado e pelas Amazonas, uma cidade cuja imagem foi gerada e alimentada pelo imaginário europeu. E, por fim, caso prefiramos os povos que aqui já residiam antes de tudo isso, então, podemos sorrir e cantar uma Manaus com uma forte cultura indígena.

Particularmente, ao olharmos para os rios e para as canoas, percebemos uma tecnologia de navegação fluvial que não é de agora, que foi herdada. Ao olharmos a variedade de peixes e quelônios misturados com a farinha, sentimos que isso já vem de alguns milênios. Quando deitamos numa rede ou pedimos um açaí com tapioca, certamente isso já veio de algum lugar do passado e quando voltamos os nossos olhos para a floresta tropical e vemos ali cravada uma cidade que hoje é uma das mais pujantes do país, não temos dúvidas que, embora com diversas contribuições culturais que têm recebido ao longo do tempo – de nordestinos, portugueses e outros – e que deixaram marcas visíveis na cultura local, a nossa matriz cultural é indígena.

Portanto, em 24 de outubro deste ano, estamos comemorando algo em torno de 7 mil anos da cidade de Manaus, cidade em que nascemos e vivemos. E estamos comemorando, maninho, comendo jaraqui!

Parabéns Manaus.

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