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Luciano Everton Costa Teles é Historiador.

O Brasil não pode cair novamente no “Canto da Sereia”

LUCIANO EVERTON

Quando Getúlio Vargas e as forças sociais que ele representava erigiram o estado de bem-estar social (que intervinha na economia, que regulava as relações entre trabalho e capital e que instituía programas sociais, entre outros) entre as décadas de 1930 e 1940, e depois nas décadas de 1950 e 1960, incluindo aí seu discípulo político, João Goulart, seu projeto político e social foi atacado intensamente pelos setores conservadores da sociedade brasileira, entre eles o integralismo nas décadas de 1930/40 e a UDN (União Democrática Nacional) nos anos de 1950/60.

Também conhecido como estado getulista, os expoentes políticos desse projeto foram atacados de forma intensa de várias maneiras, com mentiras, calúnias e difamação. Considerando a década de 1950, através do jornal Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda criticava o governo de Getúlio Vargas incessantemente, a tal ponto que não descartava as vias golpistas para retirar Vargas da Presidência. Nisto, tinha o apoio de parcela do empresariado que não concordava com a legislação trabalhista e com o discurso voltado para um desenvolvimento nacionalista.

Como atacar Getúlio Vargas? Acusando-o de várias coisas, dentre elas de corrupto. Sim, o famoso discurso de “combate à corrupção”. Na realidade, era o uso político desse discurso, mobilizado para desgastar e desestruturar o governo de Vargas e o que ele representava em termos de projeto político. Vargas foi acusado de corrupção. Foi conduzido para depor, fato que a imprensa da época cobriu. A imprensa oposicionista ligada a Carlos Lacerda aproveitou o ocorrido para endurecer o discurso contra Getúlio Vargas, especialmente no caso do assassinato de Rubens Vaz. Entre esses acontecimentos e pressões variadas, Vargas se suicidou em 1954.

Seu herdeiro político, João Goulart, manteve vivo o projeto getulista. Era visto como uma ameaça pelos setores conservadores e reacionários da sociedade brasileira do período. Quando Jânio Quadros renunciou em 1961, João Goulart que era seu vice assumiu a Presidência, no entanto os setores conservadores conseguiram impor o parlamentarismo, retirando os poderes políticos da Presidência da República. Em 1963, após um plebiscito em que a população brasileira votou pelo retorno do presidencialismo, Goulart teve seus poderes restituídos. Porém, com o discurso do “perigo vermelho”, setores da sociedade civil com o apoio das Forças Armadas deram um golpe (1964) que durou 21 anos. 

Após esse triste período de torturas, perseguições e mortes políticas empreendidas por este governo golpista, tivemos então a mobilização nacional materializada no movimento das diretas já (1984), além das greves do ABC paulista (1978/79) e de todo o movimento contra a ditadura civil-militar. Nas eleições diretas para a Presidência, em 1990, no segundo turno, novamente foi ressuscitado o discurso do “fantasma do comunismo”. Collor venceu, mas enfrentou o movimento dos caras pintadas (1992) que surgiu após a revelação de casos de corrupção no seu governo. Antes de cair, Collor apelou para a camisa verde e amarela, querendo explorar o aspecto do “patriotismo”.

Depois de alguns anos, Luís Inácio Lula da Silva ganhou as eleições (2002) e tratou de colocar em prática uma política de colaboração de classes que visava um desenvolvimento econômico com inclusão social, e a manutenção do estado getulista. Tivemos avanços sociais significativos. O Brasil saiu do mapa da fome, o salário mínimo passou a se valorizar, programas de distribuição de renda passaram a se intensificar, dentre outras políticas sociais e de proteção ao trabalho e emprego. Saindo da Presidência, conseguiu eleger a presidenta Dilma Rousseff, duas vezes. Esta sofreu um golpe, em 2016. O golpe continuou com a farsa da prisão de Lula em 2018, para tirá-lo das eleições daquele ano.

E o que foi usado nesse processo todo? Justamente o uso político do discurso de “combate à corrupção” associado ao uso político do discurso do “perigo vermelho”. Ou seja, guardados os devidos contextos históricos, foi o mesmo discurso utilizado para desestabilizar e golpear Getúlio Vargas (“combate à corrupção”) e João Goulart (“perigo vermelho”).

Não é possível que após esse desastre que é o (des)governo Bolsonaro – que usou tais discursos potencializados inclusive por fake news (“mamadeira de piroca”, “kit gay”, etc.) e pela frase “a nossa bandeira jamais será vermelha” ou a falda ideia de um governo “anticorrupção” – a população brasileira (parcela dela, claro) não aprenda com isso!

A história/memória é importante para evitar que muitos caiam nesses “cantos da sereia”.


Luciano Everton

Luciano Everton Costa Teles é Historiador

Luciano Everton

Luciano Everton Costa Teles é Historiador

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